Não há nada mais triste do que a morte de uma borboleta.

As asas não não mais alçarão voo, não baterão, e o trajeto aparentemente desconexo não mais existirá.

As cores adormecem e, como um defunto de homem, o pequeno exoesqueleto enrijece.

A vida escapou-se por ali naquele ser.

Não haverá sopro suave, brisa ou vento que altere a condição da pobre borboleta.

 

Assisti hoje ao meio dia o noticiário sobre a enchente na baixada fluminense. Adultos preocupados e apreensivos tentavam salvar o que podiam. Ruas alagadas, carros embaixo d’água, pessoas ilhadas em brinquedos de parquinho infantil. Água marrom. Até cobra.

A mães lamentavam a sujeira. Os pais lamentavam o estrago. As professoras lamentavam a escola vazia.

Enquanto isso, no segundo plano da câmera, os moleques se divertiam nas poças e comemoravam o feriado forçado. Um bebê dormia tranquilamente dentro de uma banheira de plástico enquanto dois adultos o carregavam para um lugar seco qualquer. Não havia lugar seco qualquer, mas criança nenhuma se importava.

Desgraça não existe em cabeça de criança. Desgraça é coisa inventada por adulto.

 

Uma cantora de voz doce e polida vem ocupando meus ouvidos nos últimos dias.
A Tiê eu conheci na Vida Simples, da editora abril. A revista traz ótimas dicas de música, livros e filmes. Sempre dou uma conferida nas sugestões e quase sempre me agradam. Dias depois o Thiago assistiu a uma entrevista dela na TV e me mandou uma música do cd de estreia da cantora e compositora que tem nome (e afinação) de passarinho, o Sweet Jardim.
[...] Tem espaço de sobra no meu coração. Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.
Ele mandou a 2ª do álbum, cujo título é Dois. Delícia de música (o Thiago sempre acerta hehe). Aliás, o cd todo é uma delícia, do começo ao fim. As letras falam da vida de maneira suave… a 1ª música do Sweet Jardim, por exemplo, fala exatamente (tudo) o que você gostaria de dizer pr’aquela pessoa por quem você tem um carinho sobrenatural e até arriscou um namoro, mas no meio do percurso descobriu que o que era belo mesmo era a amizade. É uma espécie de carta musicada e o título é mais que apropriado: Assinado eu.
[...] Eu fico esperando o dia que você me aceite como amiga, ainda vou te convencer. Eu sei. E te peço, me perdoa, me desculpa que eu nao fui sua namorada, pois fiquei atordoada, faltou o ar, faltou o ar.
A faixa 9, A bailarina e o estronauta, fala de encontros e despedidas, destino e saudade. A chá verde é uma valsinha de tom alegre e engraçado, que discorre sobre as técnicas seculares e ao mesmo tempo contemporâneas de como relaxar mesmo com a loucura do dia a dia.
[...] me dá pena do meu chinês. Por ele eu passava o dia inteiro a meditar, bebendo chá verde ele me diz: fica feliz que vai funcionar. Mas eu tô feliz, eu juro pelo meu irmão. O saldo final de tudo foi mais positivo que mil divãs. Por isso que não adianta querer julgar, é cada um por si, na sua própria bolha de ar.
A cantora arrisca ainda um portu-francês graciosíssimo na música Aula de francês e um inglês de quem viveu no exterior na faixa 8, Stranger, but mine.
Além de tudo, o Sweet jardim é um álbum multiuso. Você pode escutar no carro e o mundo lá fora até parece mais bonito; no banho enquanto a água quente distrai o frio do inverno, ou naquele momento gostoso com alguém.
blog…
clipe Assinado eu no Youtube…
clipe Passarinho no Youtube…
clipe A bailarina e o astronauta no Youtube…
Sweet Jardim

Sweet Jardim.

Manhã de fexta-feira gelada. Uma das mais frias do ano, exatamente como prometeu a previsão. Acordei às 6h, mas enrolei no ’soneca’ até às 06h20. Respirei fundo e enchi os pulmões de coragem pra saltar da cama. Foi só me afastar do centro urbano pra paisagem começar a ficar branca. Vibrei e sorri sozinha no carro enquanto escutava ‘Tiê’, era exatamente isso que eu queria. Senti uma sensação profunda de orgulho por estar ali, cumprindo a promessa que fiz a mim mesma. Tenho muitas outras ainda por cumprir, a maioria de coisas que preciso/gostaria de fazer, mas me enrolo, deixo para um futuro. ‘Futuro não muito distante’, falo pros meus botões. Foi assim com as fotos da geada. Estava enrolando já há duas geadas. mas… e se não formasse mais geada nesse inverno? Meu castigo por deixar para o outro dia seria ter de deixar para o ano que vem. Nem sempre a gente tem uma segunda chance.



O campinho esperou... mas ninguém apareceu pra jogar. 8h da manhã e ele continuava assim: branco e sozinho.

 

Amanhã a previsão é geada. A ideia é acordar cedo e fotografar. Já me fiz essa promessa outras vezes nesse inverno… Pois bem… Se eu cumpri-la, amanhã postarei as fotos dos campos cobertos de branco. Se não, escrevo algo sobre por que as pessoas prometem… e não cumprem!

Previsão do tempo

Previsão do tempo para 24 de julho de 2009: mãos e nariz congelados.

Adoro fotografar a natureza. Do landscape ao macro. Grande angular ou tele. Tudo e qualquer coisa. Bicho, planta, cachoeira, pôr-do-sol, pedra, inseto, céu e mar.
Uma das cenas que mais gosto de fotografar é a vida depois da chuva.
Ontem a noite choveu aqui em chapecó. Ventos fortes. O dia deu o ar da graça gélido e molhado. O céu azul intenso e o sol alegrando tudo. Aproveitei.
A chuva dá vida às cores. Dá vida às vidas.
O resultado:

saudade do que já foi
saudade do que não foi
saudade do que será
saudade de ter nascido
saudade de ter crescido
saudade de ter morrido, aquela vez
saudade do novo e do próximo
saudade do velho e do ontem
saudade de ter estado e não estar mais
é muita saudade pra um dia só. surto.

(quero ver traduzir essas linhas pra outro idioma)

 

Arara-azul

Parece até insulto colocar uma foto de uma arara-azul em P&B. Mas a sobriedade do assunto merece. (Foto: Mari Baldissera, 2006)

Li uma frase interessante de Robert Lynd, grande escritor irlandês: “Nada diferencia mais as aves dos homens do que a sua capacidade de construir e ainda assim não modificar a paisagem”.

A discrição das aves ao edificar suas moradas é uma qualidade que deveria ser copiada pelos humanos. Procure nas copas das árvores: você dificilmente irá avistar um ninho logo na primeira olhadela.

As araras-azuis fazem os ninhos no tronco oco das árvores. E não qualquer árvore, são seletas, especialistas. Constroem os ninhos nos troncos dos mandruvis, árvores frondosas de cerne macio que antigamente eram abundantes no Pantanal. Pelo formato do bico, a arara não consegue perfurar a árvore para começar a “cavar” seu ninho; ela precisa aproveitar um buraquinho que já esteja ocasionalmente lá. Com as raspas do próprio tronco, ela forra o ninho que abrigará os filhotes durante meses. Vez ou outra é possível avistar a cabeça de algum filhote curioso para fora do orifício do tronco. Não sendo por isso, mal se percebe presença tão ilustre.

Nós, humanos, não somos assim. Gostamos de ter nossa casa ao gosto dos nossos próprios traços, sem nos preocupar se nossa morada se parece com as coisas ao redor, muitas vezes porque nós mesmos não parecemos com as coisas ao redor. Morei numa fazenda no interior de Miranda, no Pantanal sul-matogrossense, e eu parecia muito com o lugar. Adorava aquela vida simples, tranqüila e sutil. Sentia-me muito bem, mesmo com as privações da vida no interior (eram mesmo privações?!)

Quando li a frase de Lynd, logo me veio à cabeça uma foto de Balneário Camboriú, com o fotógrafo na baía, em alto mar, apontando a câmera para a cidade. De longe, dezenas de caixinhas enfileiradas, de cores, tamanhos e formatos diferentes. Intransponíveis. Tente ver o que há além delas. Nada verá. Ao se aproximar da orla, ainda nessa perspectiva, é ainda mais odioso. Arranha-céus escondem os raios de sol às três horas da tarde, já que o sol se põe justamente atrás dos edifícios. Corrijo-me: os edifícios se põem justamente em frente ao sol… Ao olhar para cima, um verdadeiro pandemônio de formas, cores e estilos, uma coisa ao lado da outra sem padrão nenhum. Uma orgia arquitetônica. No apartamento, a não ser que ele seja de frente para o mar, mantenha as janelas fechadas: o vizinho do prédio ao lado está logo ali, a pouco mais de cinco metros.

Se há quem goste deste “estilo”? Deve haver, caso contrário o padrão do “sem padrão” já teria sido mudado. O fato é que vi uma foto de Balneário Camboriú na década de 1960, quando era ainda apenas Camboriú, uma vila de pescadores rústica, alegre e integrada à paisagem natural. Morei por seis anos em Balneário e tem quase três que não volto para lá. Preferi guardar na memória a Camboriú de 1960, da qual sinto saudades, e nem sequer conheci.

toda vez que o destino me afasta de você
tem uma luz lilás no céu
que banha tudo de azul.
o sol também, como eu, vai se despedindo
e o horizonte vira um quadro
de tons dourados e celestes.
se monet preferisse o céu aos campos floridos
minha despedida seria uma tela de monet.
mari angela 144_1

Fim de tarde lilás no Pantanal Sul. (Foto: Mari Baldissera, 2006)

Toda terça-feira, há mais de 2 anos, minha mãe e um grupo de amigas se reúne para jogar conversa fora. Minha mãe tem 51 anos e a idade das senhoras é mais ou menos essa. São mulheres “jovens há mais tempo”, como elas costumam dizer. Falam, gesticulam, discutem, riem e choram ao som de clássicas da MPB ou Kings of Convenience.

A pauta é variadíssima: discorrem sobre suas vidas, sobre as vidas dos outros, aquela situação da novela, o problema dos animais abandonados, relacionamentos, trabalho, filmes, ética, academia, culinária, enfim, falam da vida. A cada semana a reunião é em uma casa diferente. Como elas são agora apenas 3 freqüentadoras assíduas (embora o grupo já tenha sido bem maior), pelo menos uma vez por mês o encontro é aqui em casa. Minha mãe capricha. Faz pipoca, chimarrão, serve um bom vinho nas noites geladas que vêm fazendo nesse inverno exageradamente frio. E sempre há um livro. Retiro-me para deixá-las mais a vontade.

- Bacana esse bate-papo aí. Sobre o que vocês conversam?

- Ah filha, de tudo um pouco. Mas não conversamos… estudamos. É nosso grupo de estudo.

(Tá bom mãe, conta outra!)

- Por isso o livro? – perguntei meio descrente.

- Sim, o livro… escolhemos um livro e fazemos uma leitura dinâmica dele, toda semana lemos um ou dois capítulos, depois discutimos. Tentamos levar os ensinamentos do livro para a parte prática, para a vida.

- Hmmm, interessante… – murmurei. – E o que vocês estão lendo agora?

- “Os quatro compromissos”, de Don Miguel Ruiz, um mexicano que nasceu em família de descendência indígena, mas trilhou os caminhos da vida contemporânea. Em determinado momento, sentiu a necessidade de voltar às origens… A obra fala da filosofia de vida dos toltecas, uma antiga civilização pré-colombiana que habitava a região que hoje é México. Os toltecas acreditavam que você deveria guiar sua vida baseado em apenas 4 atitudes para “ganhar o céu na Terra”.

- Os toltecas, claro, primos dos astecas! – Rimos.

Quando pronunciei o “Hmmm, interessante…” ali em cima, no diálogo, foi um dos “Hmmm, interessante…” mais sinceros que já disse. Achei a iniciativa interessantíssima mesmo. Dividir ideias, sentimentos, opiniões e percepções é o único tipo de divisão em que nunca se sai com menos do que se entrou. Talvez elas não saibam, mas se reunindo e conversando sobre a vida, sobre os problemas de cada uma e sobre os problemas do mundo, estão fazendo uma excelente terapia. “Um homem pode saber mais do que muitos, porém nunca tanto como todos”, como observou o Marquês de Maricá. Além disso, o encontro alimenta a mente com novos conhecimentos e a alma com frequentes sessões de desabafos e gargalhadas.

Ficou curioso sobre os 4 compromissos?

Adiantarei só o título de cada um, mas não deixe de ler o livro, é leve, breve e acessível. Vale a pena.

1. Seja impecável com a sua palavra

2. Não leve nada para o lado pessoal

3. Não tire conclusões

4. Faça o melhor possível

os 4 compromissos capa

RUIZ, Don Miguel. Os quatro compromissos: o livro da filosofia tolteca. 7 ed. São Paulo: Best Seller, 2005.

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