Boca da Barra. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Não se critique se você passa o verão no litoral Norte de SC há anos e nunca tinha ouvido falar dela. A novíssima Balneário Barra do Sul passou a existir somente em 1992, quando emancipou-se, fruto de um desmembramento do município de Araquari.

Ao norte, atravessando o canal da Boca da Barra, Barra do Sul faz divisa com a linda e, neste trecho, bastante inóspita, praia do Ervino, de São Francisco do Sul. Mas não se iluda: um pulinho à histórica São Chico pode levar quase uma hora, já que é preciso retornar pelo acesso à Barra do Sul (cerca de 10km), tomar a BR-101 e fazer um semicírculo para então chegar a São Francisco. Tudo seria imensamente mais simples se houvesse uma ponte sobre o canal, ligando a Boca da Barra ao Ervino. Infelizmente (ou felizmente) o “progresso” ainda não aportou de forma tão contundente por aqui.

Praia do Ervino, em São Chico, vista de Barra do Sul. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Ilustre visitante da Boca da Barra se protegendo do sol. Foto de Mari Baldissera, 2011.

A pequena cidade, que no resto do ano tem cerca de 7 mil habitantes, na temporada chega a receber 50 mil turistas, vindos principalmente das vizinhas catarinenses Joinville, Jaraguá do Sul e São Bento do Sul. Mas também é comum encontrar visitantes gaúchos e paranaenses.

O sossego já foi maior, mas Barra do Sul ainda pode ser considerado um destino para quem pretende fugir do agito dos balneário catarinenses mais cobiçados. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Quem frequenta o Balneário há mais tempo garante: as coisas mudaram bastante. A cada ano a cidade recebe mais turistas que, cansados dos destinos badalados e superpopulosos da costa catarinense, optam por praias menos conhecidas em busca de um pouco mais de sossego mas, ao mesmo tempo, com algumas facilidades. A localização é privilegiada: num raio de menos de 100km é possível chegar a São Chico, Joinville, Beto Carrero e Balneário Camboriú.

Praia do Bispo, a favorita dos surfistas. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Se, por um lado, a vinda de turistas traz benefícios econômicos ao município, por outro pode trazer indesejáveis consequências como a especulação imobiliária, o lixo e o som alto de gente que acha que todos têm ouvido musical para funk ou sertanejo. Alugar uma casa de veraneio pode ser tão caro quanto nos destinos “consagrados” e são elas que imperam soberanas. A cidade oferece modestas opções de hospedagem e os hotéis e pousadas são simples. O Hotel Bandeirantes da Barra é talvez o que dispõe de melhor infraestrutura: são 54 apartamentos pequenos, mas funcionais, restaurante, internet wireless, sauna e uma piscina na cobertura que faz não dar muita vontade de ir a praia. Tudo isso na Boca da Barra, a praia preferida dos papais, por causa das águas calmas, o que faz o hotel ser também bastante familiar.

Piscina do hotel Bandeirantes da Barra. Foto de Mari Baldissera, 2011.

A Boca da Barra é a mais interessante das quatro praias de Barra do Sul. Do lado direito, o mole de pedra e a praia, do lado esquerdo, a Lagoa Maria Fernanda, que também forma uma praia de areias finas. Por ali é possível alugar caiaques e atravessar o canal rumo à praia do Ervino, que já integra o território de São Chico. Os mais corajosos (e em forma) podem atravessar nadando, mas é preciso ficar atento aos horários das marés. Há um posto de salva-vidas neste ponto, não custa perguntar sobre a dinâmica das ondas antes de se aventurar. Também é da Boca da Barra que partem os passeios de barco para as ilhas dos Remédios, das Araras, Feia, Tipitinga e dos Lobos. Remédios, habitada por pescadores, possui trilhas que atravessam a ilha de um lado a outro e alguns pontos para snorkeling. Nas Araras, a atração é ver a grande população dessas aves. Para os amantes do anzol, há barcos de pescadores que fazem circuitos de passeios de pesca, no continente, nas ilhas e em alto mar.

Pequenas embarcações conduzem os visitantes nos passeios rumo às ilhas. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Foto de Mari Baldissera, 2011.

A muvuca diminui à medida que o visitante se desloca para as praias ao sul. A praia da Picama é ainda bastante movimentada e também tem águas serenas. Na praia do Bispo, boa para o surf, os visitantes ficam mais esparsos. A praia da Salina é praticamente deserta. Casas, quase não há. Pessoas circulando também não, o que faz da Salina um ponto interessante para quem quer curtir o agito de longe, bem de longe. O lugar é calmo, mas o mar não. Tome cuidado, pois não há salva-vidas por perto.

Praia da Salina. Foto de Mari Baldissera, 2011.

A Praia da Salina também é procurada por suas areias monazíticas que, dizem, possuem propriedades terapêuticas no tratamento de reumatismos e artroses. É ali que fica a bica d’água, atração muito procurada pelos turistas.

Seguindo pela SC-495, estrada de chão que margeia toda a extensão da praia da Salina, é possível cruzar Araquari, Morro Grande, chegar a Barra Velha e daí à BR-101. O caminho alternativo rende uma economia de aproximadamente 30km e um pedágio, já que a rodovia estadual com cara de estradinha do interior encontra a BR logo antes do posto de cobrança. Sem contar que a paisagem por ali é muito mais bonita. Logo que as casas ficam para trás, a beira da estrada é tomada por pequenos alagados. Mais adiante, surgem as dunas e restingas. Para chegar à praia, basta encostar o carro na beira da estrada, subir a duna e pronto: lá está ela com suas ondas impiedosas. Seguindo a estrada, o visitante se depara com lagoas de água doce de cor escura como coca-cola. Vale uma pausa pra mergulhar. Em alguns trechos, é possível atravessar a lagoa a pé e chegar até a praia, que se esconde logo atrás das pequenas dunas.

Visitantes se divertem na lagoa. Foto de Mari Baldissera, 2011.

E pra não molhar o cachorro, que vai embora no carro da família logo depois... Foto de Mari Baldissera, 2011.

As praias não são sujas, mas estão longe do que se pode chamar de limpas. Além das centenas de troncos de árvores vindos sabe-se lá de onde, a praia sofre com o descuido dos moradores e turistas: não é incomum flagrar pessoas jogando lixo na rua como se estivessem em seu próprio quintal, gente que sai de férias e esquece a educação em casa. Essas pessoas são as mesmas primeiras a reclamar quando pouco mais de meia hora de chuva intensa alaga vários trechos da cidade. Felizmente, basta a chuva cessar para a água suja escoar rápido.

Os troncos, vindos sabe-se lá de onde, dão um aspecto de sujeira na praia da Salina. Foto de Mari Baldissera, 2011.

Como muitos pequenos balneários de praia pelo Brasil afora, Barra do Sul carece de opções para entreter o turista quando a chuva chega e insiste em ficar. De programinhas culturais, há quase nada. Talvez o mais gostoso deles seja dar uma volta pelas margens da Lagoa da Costeira, pelo atracadouro do centro e pelo mercado de peixes, e ouvir as histórias de pescador. Para os observadores de aves, este é um bom ponto para chegar pertinho de gaivotas, garças e biguás. E garantir boas fotos. Por ali, o visitante também tem a oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano dos homens do mar e apreciar as pequenas embarcações, muitas delas construídas no próprio município. E de quebra levar pra casa caranguejos, mariscos, camarões e peixes fresquinhos. A gastronomia, aliás, herança da cultura açoriana, tem no cardápio estes itens. Não deixe de percorrer a pé este pedacinho da cidade: os pescadores são muito receptivos e adoram uma boa prosa. E você vai descobrir que toda história de pescador tem um fundinho de verdade.

Os pescadores não dispensam uma boa prosa. Foto de Marcus Ganter, 2011.

No mercado de peixes, à beira do canal, caranguejos ainda vivos aguardam os compradores. Triste sorte destes bichinhos... Foto de Mari Baldissera, 2011.

Gaivotas e biguás esperam pacientemente algum resto de peixe jogado de volta ao canal. Foto de Mari Baldissera, 2011.