

























Já tive o prazer e o privilégio de morar no Pantanal Sul. Foi por menos tempo do que eu gostaria, verdade, mas o suficiente pra aprender muita coisa… fiz meu estágio final do bacharelado em turismo e hotelaria por lá, numa fazenda-hotel de 53 mil hectares chamada Refúgio Ecológico Caiman. Lá eu conheci algumas das pessoas mais interessantes que já passaram pela minha vida. Lá encontrei respostas pra várias das minhas inquietações, entre elas compreender que, na verdade, as perguntas são infinitamente mais importantes do que as respostas. Na dedicatória do meu TCC, coloquei esse texto, que escrevi numa tarde ensolarada de janeiro de 2006.
O Pantanal é uma escola…
Aprendi muito no Pantanal. E conheci tudo que é tipo de gente: conheci estrangeiros, caboclos, pantaneiros, peões, estagiários, guias, motoristas, índios, japoneses, de tudo um pouco. Gente simples, gente metida, gente pobre e gente rica. Aprendi a lidar com cavalos, aprendi a não ter medo de boi, a não ter medo do escuro, a não ter medo de cobra nem de aranha. Aprendi que a arara-azul é o maior pscitacídio do mundo, que elas são monogâmicas e que podem chegar a 1 metro de comprimento, da ponta do bico a ponta da cauda. Aprendi muito, muito mesmo! Aprendi que um dia de folga na fazenda nunca é um dia de folga, e que um miojo faz muita falta nesse dia. Aprendi a lidar com as pessoas, a usar protetor solar, a ligar pra minha mãe e dizer o quanto ela é importante pra mim. Aprendi que a vida é a melhor escola, e que as pessoas são os melhores professores. Aprendi a ter paciência, a observar, a ouvir. Aprendi que suco de maçã em alemão é “apfelsaft” ou algo que se pronuncia assim. Aprendi que não importa o lugar do mundo em que você estiver, lidar com pessoas vai ser sempre complicado, muito mais do que com os cavalos. Aprendi a apreciar todos os dias o pôr-do-sol, a olhar para cima procurando pássaros que ainda não conheço, a tomar tereré na lavanderia. Aprendi que um pouco de flexibilidade é bom, mas quando é demais atrapalha todo mundo. Que autonomia também é bom, mas que às vezes precisamos que alguém nos diga o que fazer para nos dar um norte. Aprendi que o melhor líder é aquele que também é amigo, mas que sabe separar as coisas; que respeito não se impõe, se conquista (embora em teoria eu já soubesse disso…). Aprendi que errar é humano, que perdoar é nobre, que generosidade deve ter limites. Descobri que a saudade dói, mas que só estamos realmente sós quando não temos ninguém no coração. Aprendi a acreditar em destino, em mau olhado, a olhar o mapa celeste. Aprendi a ler coordenadas geográficas, a capturar onça e que, no céu infinito, existe uma constelação chamada Karina. Aprendi que sapo é “toad” e que perereca é “frog”. Que tuiuiú come filhote de jacaré, e que não há nada melhor no Pantanal do que um banho gelado depois de um opcional a cavalo. Aprendi que a vida é justa, mesmo que às vezes não pareça. Que nada é por acaso, e que cada pessoa que entra em nossa vida é pra nos deixar alguma lição. Descobri que o céu aqui tem mais estrelas, que essa terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Que chipa é pão de queijo pantaneiro e que repelente quase não funciona por aqui. Aprendi a não ligar para os mosquitos, para as formigas, a ignorar as mutucas. Descobri que o desejo secreto de todo caimaner é esgoelar um arancuã. Que o colhereiro é rosa porque come muitos crustáceos. Aprendi a aprender. A ler, pesquisar, perguntar. Aprendi que a natureza foi muito generosa, e que cada amanhecer é um espetáculo à parte, sem ter que pagar ingresso. Aprendi muito no Pantanal. Principalmente que cada pessoa é única. Única e insubstituível. Como a pelagem da onça…
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