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[Matéria feita para o Jornal Voz do Oeste de 20 de setembro de 2011]

Amor animal

Cicarelli, Gauchinha, Juninho, Rita, Morena, Pretinha, Mel. Como numa chamada em sala de aula, Claudete vai conferindo mentalmente quem já ganhou comida. Estes são nomes de alguns dos quase 40 animais abandonados que Claudete abriga em sua casa.

Claudete Michailoff é uma mulher alta, encorpada. Os cabelos grisalhos e curtos combinam com seu jeito prático. Claudete diz que não há como ser diferente: a rotina começa cedo e é trabalhosa. Durante a manhã, toma conta da bicharada; dá banho, remédios, limpa a pequena varanda e o quintal de terra onde ficam os animais. Os maiores e os mais briguentos ficam nos fundos da casa. Quando chove o trabalho é dobrado, a terra vira lama e não se avista uma patinha limpa sequer.

De meio dia se arruma, toma o ônibus e vai para o trabalho. Claudete é funcionária da prefeitura e trabalha no Albergue João Piltz, que atende moradores de rua e pessoas que vêm à Chapecó fazer tratamentos de saúde e não têm condições de custear uma hospedagem. Brinco que ela está predestinada a ajudar seres, bichos e gentes que, por variados motivos, não têm para onde ir. Claudete deixa escapar um sorriso tímido e concorda.

Claudete é uma espécie de São Francisco para os animais de rua de Chapecó, um sopro de esperança. Ela não sabe explicar de onde vem o amor pelos bichos, acha que tem o coração mole. “Você passa na rua e vê uma ninhada ou um cachorro abandonado na beira da estrada. Não dá pra olhar e não fazer nada, aí você leva pra casa. Na próxima vez que passa tem mais um, e nem sempre você consegue doar os que já têm. Aí acumula, como eu tenho agora, quase 40”, explica.

Carinho, alimento e cuidados: os cachorros não precisam de muito. Claudete é como um “São Francisco” para os animais abandonados de Chapecó.

Desde 1989 ela recolhe animais da rua. Até mudou de residência para poder cuidar melhor dos bichos. Na casa onde morava antes, os vizinhos reclamavam do barulho. Claudete mudou-se para uma região onde praticamente não há residências e as reclamações pararam. “Não há muitos vizinhos e os que chegaram, chegaram depois de mim, então já sabiam que tinha cachorro”, argumenta.

A alma da Apache

Em 31 de março de 2004, quando a Associação Protetora dos Animais de Chapecó (Apache) foi fundada, Claudete tornou-se voluntária. Hoje, a ONG está temporariamente desativada, mas Claudete, como outros ex-voluntários, continua seu trabalho. Iara Lang, a última presidente em exercício da Apache, define em poucas palavras a atuação de Claudete nos seis anos em que a ONG funcionou: “A Clau era a alma da Apache”. Como a associação não possui abrigo (tampouco os órgãos públicos no município possuem), os animais resgatados ficam nas casas dos voluntários até encontrarem um lar.

Claudete é quem abriga mais bichos. Salete, sua irmã, nunca tem em casa menos de 20. Estrutura = zero. Por isso o abrigo faz falta. É uma reivindicação antiga da ONG e sem ele o trabalho fica seriamente comprometido. Iara comenta que, no último ano em que a ONG esteve na ativa, evitaram recolher animais porque não havia onde deixá-los. Há situações, entretanto, que não há saída. “Como ver um animal sofrendo, agonizando, saber que ele vai morrer se ficar como está e não fazer nada?”, questiona Marita. “Não compreendo como as pessoas podem ser tão frias, perdeu-se o respeito pela vida”.

Por causa dos parcos recursos, o trabalho da Apache estagnou. Mesmo as feirinhas de adoção, que eram realizadas na Avenida Getúlio Vargas nos Dias D, não acontecem mais. As feirinhas surtiam bons resultados, diz Iara. Desafogavam as casas dos voluntários e funcionavam como um local de encontro entre pessoas que pretendem adotar e aquelas que, por diversas razões, precisam se desfazer de seus bichos. Uma média de dez animais eram adotados a cada feira. Quem leva um bichinho para casa, não se arrepende. “Os vira-latas são inteligentes, eternamente gratos e bem mais resistentes às doenças do que os cachorros com pedigree”, comenta Marita, que além das hóspedes da Apache tem em casa Lili Beth, uma vira-latas de 14 anos; Felícia, uma labradora amarela e Luigi, um gato preto que está na família desde 1997.

Histórias caninas

Picaxu é a cachorrinha que está há mais tempo com Claudete. Quando pegou Picaxu da rua, não teve como doá-la logo. Ela estava com cinomose, virose facilmente prevenida através de vacinação, mas extremamente destrutiva depois de contraída. Picaxu demorou muito tempo para se recuperar e, assim mesmo, ficou com sequelas. Quando as sequelas amenizaram, ela já estava “velha” para ser adotada.

Claudete observa que, quanto mais velho o animal, mais difícil de ser adotado. Se a relação lembrar a adoção de crianças, não é mera coincidência… A maioria das pessoas quer filhotes, serelepes e sadios, de pequeno e médio porte. Os adultos, os grandões, os que têm alguma deficiência física ou sequelas de doenças estão condenados a viver na espera. E a espera pode ser longa e, na pior das hipóteses, eterna.

Menina, Mel e Pretinha. Sem infra-estrutura em casa para atender os animais, Claudete se vira como pode.

Uma cadela de médio porte, de pelagem amarela, é uma das integrantes mais recentes do BBB canino de Claudete. Ainda não tem nome. É dócil, bonita, tem os pelos longos e ao redor dos olhos um contorno preto que parece ter sido feito por um maquiador. Seria uma candidata fácil a adoção, não fossem os tiques nervosos incessantes nas patas traseiras que mal a deixam caminhar. A amarela cambaleia, tem as pernas fracas, um olhar triste e distante: ela é mais uma vítima da cinomose.

“É uma doença devastadora, trágica”, observa a médica veterinária Mari Giordani. A cinomose ataca o sistema nervoso central do animal, podendo resultar em convulsões, tiques nervosos e até paralisia dos membros. Muitas vezes o animal urra de dor. “Tente dobrar e esticar seu braço e realizar o mesmo movimento por cinco minutos”, sugere a veterinária, “logo o músculo estará cansado e começará a doer. Imagine agora realizar o mesmo movimento incessantemente, 24 horas por dia. O músculo estafa e a dor é tremenda”, explica. É o que ocorre nas contrações musculares involuntárias causadas pela cinomose.

Como em uma gripe, o tratamento é de apoio: depois de desencadeada a doença, é necessário “esperar” o vírus completar o seu ciclo. Quando diagnosticada e tratada a tempo, o bichinho se recupera, mas as sequelas são comuns, como no caso da amarela. E raramente se reverterão. Mari expõe que, em 26 anos de profissão, viu apenas três casos em que o sistema neurológico se recuperou plenamente e as contrações pararam por completo. As estatísticas não são animadoras. No fundo, Claudete já conhece o destino da amarela, cuja história já viu se repetir por várias vezes com outros animais: ou será adotada por uma família com muita paciência e carinho, ou será mais um dos hóspedes que chegam e nunca mais partem.

Claudete tem na memória a história das dezenas de animais que já ficaram aos seus cuidados. Pergunto se há alguma que tenha lhe marcado por ser muito trágica. Espero a resposta por alguns segundos, mas ela não vem. No lugar de palavras, lágrimas e um suspiro que mistura tristeza e desabafo. Um soluçar sutil toma conta da varanda e mesmo os animais ao nosso redor parecem notar que aquele é um momento de tristeza. Há silêncio. Enxugando as lágrimas com as costas da mão, Claudete pronuncia, com a garganta apertada: “Se for ver… todas…”

Dura rotina

Manter 40 animais alimentados, limpos e medicados não é tarefa fácil. Como Claudete trabalha à tarde, as manhãs e noites são dedicadas aos bichos. Os inquilinos caninos consomem dez quilos de ração por dia.

A conta no final do mês é alta, mas hoje, com as doações que recebe de pessoas e empresas e o auxílio dos outros ex-voluntários da Apache, Claudete mexe menos no bolso. “Tem um senhor que traz todo mês, religiosamente, 50 quilos de ração”, comenta. “É bastante para quem tem um ou dois cachorros em casa, mas para quem tem 40, vai rápido. Por isso toda ajuda é bem-vinda”. Claudete conta que, quando começou a abrigar os cachorros, bancava tudo sozinha.

Claudete alimenta a bicharada. Os hóspedes caninos consomem cerca de 10 kg de ração por dia.

Cliente antiga de algumas agropecuárias e pet shops, Claudete consegue comprar comida e medicamentos por preços módicos. Com a experiência que acumulou nesses 22 anos, tem algumas artimanhas para baratear as despesas. Usando farinha de milho, alimento nutritivo e de baixo custo, faz uma polenta e mistura com a ração. “Eles adoram, bem mais que arroz”, comenta.

Também conversa com veterinários para arranjar alternativas na hora de comprar medicamentos. Muitos remédios da linha humana podem ser administrados em animais, e costumam ser mais baratos. No anti-helmíntico (remédio para vermes), por exemplo, é possível economizar até R$ 6,00 utilizando o comprimido da linha humana.

Se tivessem consciência (e às vezes parecem ter, porque em cada um é possível observar um olhar de gratidão), estes cachorros sentiriam-se privilegiados. Estudos da Apache estimam que existam cerca de 30 mil animais abandonados em Chapecó, entre gatos e cachorros. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o número máximo tolerável de animais de rua – para uma população como a de Chapecó – seria de oito mil indivíduos.

A superpopulação e as zoonoses (doenças transmitidas dos animais para os humanos) transformam a situação dos animais de rua em um problema de saúde pública, que afeta principalmente a população mais carente e, mais intensamente, as crianças. Um levantamento feito nos postos de saúde do município mostrou que algumas crianças chegam a ser tratadas dos mesmos sintomas até seis vezes no período de um ano. As doenças mais comumente transmitidas pelos animais são sarnas e verminoses.

As contaminações sucessivas tornam o tratamento inócuo, já que a causa, que é o convívio com animais doentes, continua presente. A Apache argumenta que, se houvesse tratamento para esses animais, como vacinações e, principalmente, controle populacional, muito se evitaria gastar com saúde pública.

“Toda essa luta, compensa?”, pergunto à Claudete. Com as mãos sujas e a roupa cheia de pelos, um filhote no colo e o resto da bicharada enroscando-se por suas pernas, Claudete dá a resposta sem pronunciar uma palavra. Olha para longe, sem me fitar, e sorri.

[Matéria feita para a editoria Geral do Jornal Voz do Oeste de 10 de agosto de 2011]

 

Cenário de destruição

A chuva forte e as rajadas de vento, que chegaram a 130km/h na madrugada de terça, causaram estragos por toda a cidade. No Colégio Pedro Maciel, uma araucária caiu sobre a escola durante a noite, causando prejuízos e mudando a rotina de professores e alunos.

Os alunos da Escola Estadual Básica Pedro Maciel tiveram uma surpresa ao chegar ao colégio na manhã de ontem. Alterando a paisagem, a araucária de mais de 20 anos tombava sobre a escola. O cenário era de destruição.

Janela e telhados quebrados, computadores, móveis, equipamentos, livros: tudo foi perdido. A árvore, que ficava no alto do barranco, do lado direito da escola, caiu sobre a sala dos professores e da coordenação pedagógica, formando uma verdadeira ponte e danificando tudo o que encontrou pela frente.

As salas dos professores e da coordenação pedagógica foram as mais afetadas: computadores, móveis, equipamentos e livros: tudo encharcado.

A rede elétrica foi desligada e as aulas suspensas. A diretora da Escola, Clarisse Presse, diz que fará de tudo para as aulas serem retomadas o mais rápido possível, mas que depende de laudos para avaliar se a estrutura do prédio não foi afetada em outras partes. “Se os técnicos autorizarem, pretendemos isolar este pedaço do edifício e prosseguir com as aulas, talvez usar algumas salas de aula do Ceja”, afirma Clarisse.

“Ainda bem que foi de madrugada e não havia ninguém na escola”, desabafa a gerente de Educação da Secretaria de Desenvolvimento Regional, Maria Leticia Borsoi Baldin. Segundo ela, o próximo passo é aguardar os levantamentos técnicos e solicitar a reconstrução das áreas danificadas e a compra dos materiais perdidos. “Isso será feito em caráter de urgência para não prejudicar ainda mais o andamento das aulas, que já estão atrasadas devido à greve dos professores”, concluiu a gerente.

Salas sem alunos e cheias de água: as aulas foram suspensas até os laudos definirem se a estrutura do prédio foi afetada em outros pontos.

 

Limpeza

Às 9h da manhã a equipe da Fundação do Meio Ambiente (Fundema) já se encontrava no local para realizar a remoção do pinheiro e a limpeza da área. Segundo o diretor presidente da Fundema, Nelson João Krombauer, o pinheiro estava com cerca de 90% das raízes podres. “Não foi preciso muito vento para derrubar esta araucária”, comentou.

A equipe da Fundema chegou cedo ao local. A árvore precisou ser serrada em vários pontos para que os trabalhadores conseguissem fazer a retirada.

De acordo com Krombauer, os meses com temperaturas em transição costumam ser críticos na região: “Há formação de raios, vento forte e tempestades. É comum atendermos muitos chamados nos meses de agosto e setembro”, comenta.

Krombauer acredita que o prejuízo poderia ter sido evitado e faz um apelo à população: ao identificar árvores velhas ou notadamente podres, que ofereçam risco, qualquer cidadão pode entrar em contato com a Fundema (49 3319 1150) e solicitar a derrubada. Mas alerta: derrubar árvores nativas sem autorização é crime. “Ao procurar a Fundema, nossa equipe técnica analisa a situação e só com a confirmação do risco a derrubada é autorizada”, explica.

Segundo Krombauer, as raízes da araucária estavam podres e já não cumpriam a função de sustentação: “Não foi preciso muito vento para derrubar este pinheiro”.

[Matéria feita para o caderno de cultura "Comportamento" do Jornal Voz do Oeste de 30 de julho de 2011]

O Twitter em favor da arte

A artista Dafne Pellizzaro é fã de fotografia. E das mídias sociais. Juntando tudo num balaio só, Dafne encontrou uma forma de aliar Twitter e arte e seu trabalho foi parar em uma exposição de fotografias em São Caetano do Sul/SP. Saiba mais dessa história.

 

Foto: Mari Baldissera

O Twitter você já conhece. É o microblog do passarinho azul onde você escreve o que pensa em 140 caracteres. Através dele, pessoas se conhecem, notícias correm na velocidade da luz e atores e políticos cotam sua popularidade.

A cada dia, a ferramenta que transformou a forma de se comunicar via internet ganha novas utilidades. Algumas acabam abrindo portas. Quando a artista e acadêmica do curso de Artes Visuais, Dafne Pellizzaro, adicionou um desconhecido fotoclube de São Caetano do Sul ao seu rol de amigos do Twitter, não sabia o que a esperava.

Pelas postagens do clube ABCClick (@ABCCliCk) no microblog, Dafne (@dafcris) ficou sabendo de um concurso de fotografia e resolveu arriscar. A temática era livre e cada participante poderia escolher quatro imagens para competir. Mas como selecioná-las? Novamente, o Twitter: a artista disponibilizou as imagens e pediu que os amigos votassem nas que mais gostavam. Foi assim que Dafne escolheu e submeteu suas quatro imagens ao concurso, entre elas a do gatinho. Falaremos dela mais adiante…

A foto na vida

Dafne sempre gostou de fotografia. Desde criança, quando ia passar as férias na praia, travava uma batalha homérica com a mãe para pegar a câmera fotográfica e sair clicando. “Era uma briga, minha mãe não queria me dar por receio das fotos ficarem ruins ou eu estragar o filme. Mas quando mandávamos revelar, as fotos quase sempre estavam boas”, relembra Dafne. Culpa do olhar sensível da fotógrafa.

Quando terminou o colégio, queria cursar faculdade de fotografia. Mas na época a avó ficou doente e a família teve de ficar próxima. Descobriu o bacharelado em Artes Visuais da Unochapecó e, quando ficou sabendo que havia uma disciplina de fotografia na grade do curso, não teve dúvidas.

Dafne gosta de fotografar cenas do cotidiano e brinca com movimentos borrados, nus, e abstratos. Também arrisca de modelo para amigos fotógrafos. Além dos clics, a artista trabalha com desenho, pintura e videoarte. Dafne se forma no final do ano e pretende sair de Chapecó, ir em busca de novas oportunidades no campo da fotografia artística, provavelmente em São Paulo.

A foto do gatinho

Entre as fotos escolhidas pelos amigos de Dafne, um gatinho caramelo, sapeca, mordendo um tênis All Star com ar de leão. Dafne não imaginou que aquela imagem teria chance, mas foi justamente ela a selecionada para participar da Mostra Paralela, exposição que encerraria o concurso e premiaria as melhores imagens.

“Das fotos que eu mandei, era a que tinha menor qualidade técnica, foi feita com uma câmera compacta sem muitos recursos. Mas a cena é bonita, a primeira parte da seleção foi por júri popular. Acho que as pessoas gostam de ver fotos fofinhas”, comenta a artista. Dafne prova que, no mundo da fotografia, muitas vezes um olhar atento vale mais do que uma dezena de técnicas.

Dafne com a foto que passou pelo crivo dos amigos no Twitter e foi selecionada para participar de uma exposição em SP: tuitar para alavancar a arte. Foto: Arquivo pessoal.

A artista foi para São Caetano do Sul, em São Paulo, prestigiar a abertura da exposição. Dafne conta que, quando chegou ao local e viu sua foto exposta, não segurou a emoção. “Eles não divulgaram qual foto havia sido selecionada. Foi uma grande surpresa. Eu entrei na galeria e pensei: ‘É o meu gatinho! Ele está aqui!’. Chorei mesmo!”, conta, com brilho nos olhos.

Dafne passou uma semana em São Caetano e, como prêmio por ter a foto selecionada, pôde escolher duas oficinas entre as dez oferecidas no evento para participar gratuitamente. Dafne aproveitou a viagem para fazer uma sequencia de fotos noturnas que pretende usar em um novo trabalho de stop motion. Para conhecer mais o trabalho de Dafne, visite o site www.flickr.com/photos/dafnecristhinne.

[Matéria feita para o caderno de cultura "Comportamento" do Jornal Voz do Oeste de 30 de julho de 2011]

Palhaça Barrica comemora 10 anos com espetáculo no Sesc

Ela é atrapalhada e já arrancou gargalhadas de milhares de pessoas desde que “nasceu”. Criada pela atriz Michelle Silveira da Silva, a personagem Palhaça Barrica comemora o aniversário de 10 anos com o espetáculo “Poráguabaixo”, no Sesc Chapecó.

Foto: Divulgação.

A atriz, professora e bacharel em Interpretação e Direção Teatral, Michelle Silveira da Silva, é graça do início ao fim. Vestida de vermelho e preto com acessórios petit-pois, Michelle encarna a Palhaça Barrica, personagem clownesca que criou há dez anos. Sem ser Barrica, Michelle é uma pessoa carismática, de voz firme e doce ao mesmo tempo, daquelas que têm sempre um sorriso no rosto.

A personalidade de Michelle e de Barrica se fundem fazendo os números apresentados serem de uma sinceridade tremenda. Para comemorar o aniversário de dez anos da palhacinha mais conhecida de Chapecó, Michelle sobe ao palco do Sesc neste domingo, às 16h, para apresentar o espetáculo “Poráguabaixo”. Nele, Barrica decide ir à praia. Sem muita sorte e sem saber nadar, já podemos imaginar aonde a história vai parar. A jornalista Mariane Kerbes assistiu à peça e garante: é um teatro para toda a família, com riso do início ao fim.

Em conversa informal, Michelle falou sobre a personagem, carreira, envolvimento com o teatro e a arte clownesca. Depois de ler esta matéria, quando alguém te chamar de palhaço, por favor, reveja seus conceitos. Pode ser um grande elogio! Confira o bate-papo e conheça mais o trabalho de Michelle. E de Barrica.

VOZ – Como você se envolveu com arte/teatro? Você tem artistas na família?

Michelle – Desde criança, quando eu morava no interior, sentia afinidade pela arte da interpretação, mas minha única referência eram as novelas. Teatro mesmo eu só conheci aos 9 anos, quando as mulheres da minha comunidade se reuniram e montaram uma comédia amadora. Elas entraram em cena em procissão, tocando gaita e cantando “que beijinho doce, que ele tem…”. Esta imagem ficou na minha cabeça e eu fiquei encantada com a possibilidade de estar em cena. Assistia diariamente a Escolinha do Professor Raimundo e no dia seguinte induzia os meus colegas a fazerem encenações na escola. Eu me divertia muito e sempre acabava conduzindo o espetáculo, porque a paixão pela cena já morava em mim. Hoje eu agradeço aos meus colegas por entrarem nas minhas invenções. Tenho vários artistas família, mas artistas desconhecidos, sem pretensões com a arte. Meu avô materno era gaiteiro dos bons, assim como meu tio paterno, que também era poeta. É como se eu tivesse conseguido canalizar esta força que já acompanhava a família. Eu não tenho ouvido pra música, mas acho que tive ouvido pra palhaça! Aos 16 anos ingressei na universidade, no curso de Artes Cênicas. Fui em busca de algo desconhecido pra mim e acabei encontrando um mundo de possibilidades, me envolvendo com o teatro e, a partir daí, conhecendo outras linguagens artísticas.

VOZ – E com a arte “clownesca”? Aliás, você pode explicar pra gente quem são os clowns e se há alguma diferença entre eles e os palhaços?

Michelle – Em 2001 conheci a linguagem do palhaço na universidade e desde então não pude mais me separar da ideia de ser palhaça. A questão de Clown e Palhaço pode ser complexa. Eu mesma, por muito tempo, tive dificuldade de entender. Mas hoje esta questão fica simples assim: durante muitos anos, desde que o homem existe, existiu também em todas as comunidades e tribos, pessoas que representavam esta figura cômica e atrapalhada que via graça nas situações cotidianas. Em cada tempo e em cada lugar, esta figura teve nomes, funções e vestimentas diferentes, mas todos tinham em comum a questão do ridículo, de ser o espelho da humanidade, espantar o medo pelo riso e criticar a sociedade de alguma forma. A palavra palhaço vem designar esta figura, que no século XVII ligou-se aos espetáculos de circo, e depois daí passou a influenciar inúmeros artistas e linguagens. O Clown é um palhaço, mas com um processo de criação diferenciado. Aí começa a ficar mais complexo e eu não quero complicar ninguém! É como se Palhaço fosse a linguagem e Clown um estilo de trabalhar esta linguagem.

VOZ – Como surgiu a Palhaça Barrica? Qual a personalidade dela e o que ela pretende transmitir ao público?

Michelle – A Barrica surgiu no começo de 2001, quando tive a disciplina de técnicas circenses. Desde então eu não consegui mais me separar do olhar de palhaço. Nestes 10 anos de trabalho, pesquisa, práticas e desafios, muitas coisas mudaram. Quase tudo mudou, com exceção de duas coisas: a paixão e o encantamento que me impulsionaram a desejar ser um palhaço e que me preenchem até hoje. O processo de descoberta do clown/palhaço sempre tende a ser doloroso, por se tratar de uma exposição do próprio ridículo. Depois vem a fase de aceitação para depois tornar-se comunhão. E comigo não foi diferente. Barrica é uma palhaça que deseja ser muito amada pelo público e quer amá-lo. Usa de sua forma física avantajada para seduzir e arrancar risos da sua plateia. Palhaça versátil, depois de descobrir que podia tudo, se aventura na música, na dança, na poesia, na moda, em tudo o que lhe vier na cabeça.

VOZ – Quantos espetáculos a Barrica já fez? Teve algum que tenha marcado a sua carreira?

Michelle – Barrica já estrelou nos números El grand Cirkito (2003); Enchendo Linguiça (2005); Barrica Poráguabaixo (2008) e Cirkito de los Badulakes (2009). Um momento marcante foi quando fui convidada para ir ao Encontro Internacional de Palhaças e depois ao Anjos do Picadeiro, Encontro Internacional de Palhaços. Nestes dois momentos, pude encontrar pessoalmente palhaços que sempre foram minhas referências e descobrir outros tantos que passaram a ser.

Barrica é Michelle em ação: a palhaça trapalhona comemora 10 anos de aniversário com espetáculo no Sesc Chapecó. Foto de Thiago Sabino.

VOZ – Você é também professora de clown. Qualquer pessoa pode se tornar um palhaço ou é necessário ter algum “dom”?

Michelle – Sou professora de palhaço e acredito que todas as pessoas têm a possibilidade de ser palhaço sim. No curso, descobrimos a potencialidade que cada um tem de rir de si mesmo. A partir daí, o que a pessoa faz com esta descoberta é que vai definir sua trajetória de palhaço. Você pode descobrir e guardar na gaveta, pode descobrir e isso ajudar você a olhar o mundo com outros olhos, ou pode descobrir e decidir ser um palhaço profissional.

VOZ – Como a arte do clown pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes?

Michelle – A arte do palhaço pode ajudar em vários aspectos, primeiro porque você começa a se ver de forma diferente ou, quem sabe, se ver como você realmente é. Desenvolve sua capacidade de brincar com as situações, a habilidade do prazer, descobre que se você não sentir prazer na cena, o público também não sente. Então tudo passa a ser uma grande brincadeira. As crianças adoram. O mais interessante com as crianças é que a lógica delas já é a lógica do palhaço, uma lógica inversa, pura e cheia de possibilidades. O adulto tem que se despir das máscaras para voltar a este olhar. Mas quando chega, se diverte. Ministro cursos em Chapecó e em outras cidades. Em Chapecó, os interessados podem procurar a Fundação Cultural de Chapecó (49 3319 1010) e se informar sobre os cursos de Clown, são gratuitos.

VOZ – A Barrica está completando 10 anos. Quanto da Michelle há na Barrica e quanto da Barrica há na Michelle?

Michelle – Tudo. Somos a mesma pessoa. A diferença é que a Barrica é a caricatura da Michelle. É tudo em exagero, ampliado, como se a Michelle estivesse na frente de uma super lente, que revela até os movimentos da alma.

VOZ – O que as pessoas podem esperar do espetáculo de domingo?

Michelle – Gostaria de convidar todos para irem até o Sesc comemorar com a Barrica este momento marcante. Pra quem já assistiu, terá novidades. Pra quem não viu, é pura surpresa, pra brincar e se divertir juntos. A agenda com os próximos espetáculos pode ser encontrada no blog www.blogdapalhacabarrica.blospot.com.

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