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AMBIENTE

“Precisamos cuidar do mundo que não veremos.”

(Bertrand Russell)

Em São Thomé das Letras/MG, lugarzinho que adoro. 2008.

Tudo nessa vida tem um limite. O copo que transborda ao ficar cheio, o estômago que pesa quando se come demais, a paciência política do cidadão que se esgota ao assistir TV e saber da impunidade em mais um caso de corrupção. Imagine a ideia de limite em escala planetária. Se tudo nesse mundo tem um limite, é de se imaginar que o próprio mundo tenha seu limite. Isso fica mais claro quando se fala em meio ambiente.

Identificar e quantificar os limites da Terra, que não devem (deveriam) ser transgredidos, ajudaria a evitar que as atividades humanas continuem causando mudanças ambientais em níveis tão críticos, como se vê hoje. A afirmação, de um grupo internacional de cientistas, está em artigo destacado na edição da última quinta-feira (24) da Nature, uma das mais conceituadas revistas científicas.

Segundo os estudiosos, a humanidade deve permanecer dentro dessas fronteiras se quiser manter os processos essenciais do sistema terrestre e evitar alterações ambientais de dimensões catastróficas. Esses limites representariam os espaços seguros que garantem a vida humana na Terra.

O conceito de limites (ou fronteiras) planetários representa um novo modelo para medir as agressões ao planeta. Johan Rockström, da Universidade de Estocolmo, na Suécia, junto com colegas pesquisadores de várias áreas, sugerem nove processos sistêmicos principais que seriam a base do controle desses limites: mudanças climáticas; acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos; poluição química e a taxa de perda da biodiversidade.

Para três desses limites da ação humana (ciclo do nitrogênio, perda da biodiversidade e mudanças climáticas), os autores do artigo argumentam que a fronteira aceitável já foi atravessada. Afirmam também que a humanidade está próxima dos limites no uso de água, na conversão de florestas e de outros ecossistemas naturais para uso agropecuário, na acidificação oceânica e no ciclo de fósforo.

Apesar de ser extremamente difícil “medir” esses limites, o estudo fornece números, baseado em cálculos estatísticos e projeções. Em relação ao ciclo do nitrogênio, por exemplo: antes da Revolução Industrial, a quantidade de nitrogênio removido da atmosfera para uso humano era zero. O limite estabelecido pelo estudo é de 35 milhões de toneladas por ano. Parece muito, mas os valores atuais são de 121 milhões, mais de três acima do limite aceitável.

A taxa de perda de biodiversidade, calculada em número de espécies extintas por milhão de espécies por ano, era de 0,1 a 1 até o início da era industrial. O limite proposto pelo estudo é de 35, mas o valor atual da taxa já passa de 100.

O consumo de água potável por humanos era de 415 quilômetros cúbicos por ano, antes da Revolução Industrial. Hoje, chegou a 2.600, perigosamente próximo ao limite sugerido de 4.000 quilômetros cúbicos por ano. Os pesquisadores destacam a necessidade de se estabelecer os limites também para a emissão de aerossóis atmosféricos e de poluição química, apesar de não haver, atualmente, dados suficientes para estipular esses números.

Transgredir uma única dessas fronteiras planetárias por um tempo demasiadamente longo é o suficiente, argumentam os estudiosos, para promover alterações ambientais “abruptas e inaceitáveis que serão muito danosas ou até mesmo catastróficas à sociedade”. Além disso, quando um limite é derrubado, os níveis de segurança dos outros processos acabam sendo seriamente afetados.

“Embora a Terra tenha passado por muitos períodos de alterações ambientais importantes, o ambiente planetário tem se mantido estável pelos últimos 10 mil anos. Esse período de estabilidade – que os geólogos chamam de Holoceno – viu civilizações surgirem, se desenvolverem e florescerem. Mas tal estabilidade pode estar em risco”, descrevem os autores. “Desde a Revolução Industrial, um novo período surgiu, o Antropoceno, no qual as ações humanas se tornaram o principal condutor das mudanças ambientais globais”, explicam. Segundo os pesquisadores, se não fosse a pressão promovida pelo homem, o Holoceno continuaria ainda por muitos milhares de anos.

O artigo A safe operating space for humanity, de Johan Rockström e outros autores, pode ser lido na íntegra por assinantes da Nature em www.nature.com. (Fonte: Agência Fapesp)

Continuemos nosso papo de fazer algo para tornar o mundo um lugar melhor. Começo com um aviso para quem acha que isso é utópico ou muito dispendioso: não é. Principalmente quando cada um faz a sua parte.

A sua parte não precisa ser igual a minha parte. Na verdade, é até melhor que não seja, pois assim estaremos somando. Cada um pode contribuir de acordo com suas habilidades, com o que sabe fazer. Essa é a essência do voluntariado. Mas você não precisa se filiar a nenhuma ONG para se tornar um voluntário. Você pode ser voluntário do mundo, colaborando com pequenas ações.

Muita gente tem vontade de ajudar e não sabe como. Por isso pensei nesse texto para exemplificar como eu faço a minha pequena parte e quem sabe dar algumas ideias. São atitudes simples que não causam grandes mudanças na sua rotina. E se causarem, tenha certeza, serão positivas.

Tenho atenção extrema com a água. Deixo as louças de molho na pia e as lavo com a torneira fechada. Para escovar os dentes, a mesma coisa: torneira aberta só quando é necessário. Quando levanto pela manhã, não faço xixi na privada, deixo para fazer no banho. Isso mesmo, xixi no banho! É uma descarga a menos por dia (e uma descarga despeja cerca de 12 litros de água limpa). O banho também é breve. Quando lavo os cabelos, demoro um pouquinho mais, mas procuro não passar da marca dos 6 minutos. E essa marca está em aperfeiçoamento!

Também faço mudas de árvores. Moro numa casa com quintal enorme, cheio de árvores frutíferas. As sementes das frutas que caem mais as das que comemos e jogamos no quintal acabam brotando de maneira natural. Com cuidado, retiro a pequena arvorezinha e transplanto para caixas de leite. Assim tenho meu próprio viveiro de plantas, com jabuticabeiras, romãzeiras, ipês, umbus e até copaíbas cujas sementes eu trouxe de Minas. Recentemente, minha mãe podou os parreirais. “Os meses sem a letra ‘R’ no nome é que são os meses bons para a poda”, diz meu avô. E ele está certo. O parreiral brota com tudo na primavera e no verão temos deliciosas e graúdas uvas para a ceia de Ano Novo. Fiquei com pena daqueles galhos todos de parreira que iriam secar até morrer e me adiantei: cortei em pedaços conforme instruções da minha mãe e fiz dezenas de mudas de enxerto. Logo de uma parreira terei no mínimo umas cem. De tempos em tempos aparece algum amigo procurando uma árvore. “Queria uma frondosa, que fizesse muita sombra”. “Ah! Tenho aqui uma do jeitinho que você precisa! É um umbuzeiro. E de lambuja você levará um excelente repelente natural, já que a árvore do umbu tem esse efeito de afastar alguns insetos, como as pulgas. Era inclusive usada para este fim nas antigas reduções jesuítico-guaranis, na época das Missões.” Mais uma árvore plantada no mundo, entre tantas derrubadas diariamente. Fico feliz.

O lixo aqui em casa também tem destino certo. O orgânico vai direto para o quintal que, espalhado e misturado com terra e folhas secas, não cheira mal nem atrai insetos. O reciclável coloco na lixeira durante o dia. Mesmo que a sua cidade não tenha coleta seletiva ou ela seja falha, como é na minha, sempre passa um catador que recolhe o material e depois vende para uma cooperativa, completando assim o ciclo da reciclagem. O lixo que não pode ser reciclado, que acaba sendo uma pequeníssima quantidade, vai para a lixeira no fim da tarde, e a noitinha o caminhão da coleta passa e o leva para destino apropriado (ou pelo menos é o que eu espero. Assim como cada cidadão tem de fazer a sua parte, espera-se que o poder público também faça).

Também sou voluntária da ONG Apache – Associação Protetora dos Animais de Chapecó e Região Oeste de SC, que recolhe, acolhe, trata e busca um lar adotivo para animais abandonados ou em situação de maus tratos. Sexta passada, por exemplo, eu estava com seis filhotinhos de cachorro alegrando e bagunçando a minha casa. São de uma família cuja cadela teve cria, mas eles não têm condições de manter essa bicharada toda. Nós recolhemos os bichinhos, demos remédio para vermes e minha incumbência era deixá-los limpinhos e cheirosos para a feirinha de adoção que aconteceu no sábado. Foi uma maratona, mas eu e minha mãe demos conta do recado. Essas feiras são realizadas periodicamente com o intuito de aproximar pessoas que querem/precisam doar de pessoas que estão a procura de um animalzinho de estimação. Os seis foram adotados e ganharam uma nova casa. Em boa propaganda da Mastercard: isso não tem preço.

Enfim, poderia citar ainda o mutirão que faço com amigos e parentes para arrecadar roupas de gente e de cama para doação, ou as vezes que deixo o carro em casa e pego uma carona. Como você vê, não é necessário mudar toda a sua rotina para agir de forma mais ecologicamente e socialmente generosa. Se você acha que isso é muito pouco, reflita sobre a frase de Edmund Burke, ilustre político e filósofo: “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco”.

No post do dia 13/08 falei sobre o zelo para com o planeta e utilizei uma analogia que batizei de Teoria ecológica do tupperware. A ideia é simples: quando você leva de alguém um pote com uma comida gostosa, é justo que você devolva o pote também cheio. É uma questão de polidez. Com o planeta deve ser assim também.

O planeta Terra, nossa casa comum, nos dá tudo que precisamos para sobreviver. Absolutamente tudo o que consumimos vem de uma matéria-prima viva ou não-viva. Se nos é dado tanto, nada mais sensato do que retribuir. Até porque chegará o momento em que a Terra esgotará, caso os recursos não sejam repostos em tempo.

O ideal seria deixar o planeta, quando de sua morte, melhor do você o encontrou ou, no mínimo, deixá-lo igual. Não é uma conta fácil de fazer, matematicamente falando. Mas a análise qualitativa é muito simples. Lá no fundo, todo mundo sabe se está colaborando com o planeta ou não, se está fazendo a sua parte. É só fazer uma reflexão honesta. Sempre há algo a mais que pode ser feito, ou algo que pode ser melhorado.

Você pode pensar da seguinte maneira: “meu banho de 10 minutos está ótimo, porque tem gente que fica 15 no chuveiro”. Mas assim você estará nivelando a situação por baixo, e essa não é uma atitude de quem busca o aperfeiçoamento contínuo. Ao invés de medir dessa forma, você pode mudar seu pensamento para: “banho demorado às vezes é muito bom, relaxante, mas dessa vez ficarei 5 minutos ao invés dos 10 de costume”. Você estará fazendo a sua parte e não será nenhum grande sacrifício. E mesmo que você sinta uma sensaçãozinha de estar sacrificando alguns minutos do prazer do banho, lembre-se que quase tudo na vida que é bom chega até nós com uma pequena (às vezes grande!) dose de sacrifício. Assim é até melhor, porque a gente dá mais valor.

Deixar o planeta melhor do que o encontrou: esse é o verdadeiro espirito da sustentabilidade.

Todos os dias me pergunto o que estou fazendo para deixar esse lugar transitório chamado Planeta Terra melhor do que o encontrei. Se você me perguntar o porquê, eu poderia citar dezenas de fábulas, frases e teorias que desenhariam perfeitamente minhas motivações. Mas não há porque me estender, quando a resposta é simples: cuido porque não é meu.

É a mesma história de quando você visita alguém querido e sai de lá com um pote de sobremesa que sobrou do almoço. Como você devolve o pote?

Por polidez e consideração para com o anfitrião, você irá devolvê-lo também cheio, de alguma gostosura que você tenha feito ou comprado, como forma de agradecimento. Se for um amigo mais chegado, tudo bem em devolver o pote vazio de vez em quando, desde que impecavelmente limpo e acompanhado por gratidão. Mas devolver o tupperware vazio e ainda por cima sujo? Ah! Tenha paciência! Seria muita indelicadeza da sua parte, uma tremenda falta de civilidade.

Assim é minha relação com o planeta. Não pretendo, lá no final da minha existência, devolver o pote vazio. Por isso faço a minha parte.

J. J. Audubon é autor de uma ótima frase sobre o cuidado com o planeta: “O verdadeiro conservacionista é um homem que sabe que o mundo não foi dado por seus pais, mas emprestado de seus filhos”. Esse é o legítimo sentimento de amor à vida e zelo para com o que é seu temporariamente, não em definitivo. Esse é o autêntico espírito da sustentabilidade.

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